VOCÊ CONTRATA ELEVADOR, SALA DE REUNIÃO DE ALTA TECNOLOGIA, CONSULTORES QUE VESTEM ARMANI, TOMAM UMA TAÇA DO MELHOR VINHO A CADA REFEIÇÃO E INTERROMPEM O TRABALHO PARA UM ALMOÇO DE $ 1.000?
OU PREFERE CONTRATAR GÊNIOS?
Eu não sei o que você prefere: idiotas vestidos à moda Havard ou gênios vestidos como gente normal?
Um advogado amigo, de BH, concluiu uma grande negociação que resultou em negócio divulgado na mídia nacional. Ele, advogado mineiro, inteligente, experiente e outras tantas redundâncias (sim, você já conheceu advogado mineiro burro?). Se perguntado sobre seus títulos, dirá com orgulho:
“bacharel em Direito e sócio do Atlético!”
Durante toda a negociação que enfrentou sozinho, os dois títulos lhe bastaram. Depois de tudo assinado, fato relevante publicado, comentou comigo: “Dr. Nacir, estou decepcionado com a péssima qualidade das consultorias de alta qualidade”.
É MUITO YOU PARA O MEU UAI
Esqueci de dizer: as duas partes contrataram as duas maiores consultorias de fusões e aquisições que atuam no Brasil e o meu amigo teve então uma delas ao seu dispor: mas teve que enfrentar a ambas, uma assessorava a outra parte e outra cuidava de atrapalhar a parte a que ele representava.
Atrapalhar como?
Das mais variadas formas que se pode atrapalhar um negócio, (neste ponto o leitor fica livre para pensar em qualquer forma, pois eles utilizaram todas). Para dar um exemplo básico: o time que assessorava o meu amigo de BH trocava email’s em inglês. (“É muito you para o meu uai”, diria o filósofo Zé Geraldo).
Tranquilizei o amigo mineiro dizendo que não era um problema enfrentado só por ele, era um problema tão comum que tinha até um nome:
O IMPÉRIO DA FORMA SOBRE O CONTEÚDO
Você pode não acreditar, mas tem gente que prefere o cardápio ao alimento: como se fosse comer o próprio papel onde consta o menu.
Para não incomodar aos advogados, vou tratar o tema da patologia me referindo aos médicos.
O pai de um amigo, de Alphaville, é médico. Precisei de um, pedi que indicasse. Ele enviou um email ao filho dizendo assim:
“Filho se o seu amigo não quer consultar um elevador, uma sala de espera de alta tecnologia, um endereço sofisticado e uma conta de vários dígitos, então diga para procurar o Dr. Fulano, ele é médico especializado em gente.”
Procurei o Dr. Fulano, lógico, pois não sou beltrano e também nasci em Minas, vendo minhas consultas em São Paulo, precisamente instalado no Reino das Formas: Alphaville.
O Dr. Fulano começa as 8 e termina as 22 horas, todos os dias. Como diagnóstico de gente não cabe em uma planilha excel, sua consulta demora o tempo que tiver que demorar, logo, a sala de espera é de fato uma sala de espera, não tenha pressa: eu sempre levo um livro e por isso não reclamo.
O Dr. Fulano tem consciência de que está lidando com gente, então é igual ao advogado de BH, não se especializou em nada, sendo um clássico (e cada vez menos comum) especialista em gente.
Dr. Fulano faz todo o tipo de pergunta, como eram os médicos da minha infância que pertenciam ao tempo em que se estudava Filosofia.
Dr. Fulano não confia em exames, por isso pergunta tanto sobre tudo. Ao final da consulta pede exames e pergunta embaraçado se é problemático repetir o mesmo exame em 2 laboratórios distintos: é que ele não confia em nenhum dos dois, apesar de terem ambos o ISO.
O Dr. Fulano telefona para o paciente e, não necessariamente para saber como esta o tratamento, mas para saber como está a vida, pois ele cuida da vida, da vitalidade.
Visitei uma Usina Siderúrgica, o engenheiro diretor disse que aprendera com o Mestre Dr.Romero que uma usina de gusa é uma fábrica de escória e que, portanto, se prestando atenção à qualidade da escória, se determinava a qualidade do gusa. Ouvi a explicação e lembrei do Dr. Fulano, que pergunta sim sobre a alimentação mas presta muita atenção à qualidade do que não é utilizado pelo organismo, como faziam os médicos de antigamente.
Evocando a toda esta história resolvi a revolta que incomodava meu amigo, advogado de BH:
“O que importa é observar a qualidade da escória. A qualidade do contrato esta diretamente relacionada à qualidade da escória e ainda é muito cedo para avaliar pois o tempo ainda não agiu.”
PORQUE CADA VEZ MAIS EMPRESÁRIOS CONTRATAM GRIFE
QUANDO PRETENDEM CONTRATAR GENTE?
A resposta é simples demais:
“é preferível errar contratando a empresa tida como certa do que correr o risco de acertar contratando a gente certa.“
Em uma empresa com gestão coorporativa, com métrica, com tudo, todos estão petrificados com o medo de errar. Um erro e você esta fora e eles não acreditam que existe vida fora do ambiente coorporativo. Eles são viciados em cartões de visita, dependentes de logotipos, submergiram em um tumultuoso oceano de organizações fora das quais não acreditam na existência de vida nem tão pouco sabem viver.
Na grande empresa, ter que decidir é um pavor que faz tremer do Presidente ao Porteiro. Tanto o Presidente como o Porteiro podem ocupar o mesmo cargo em qualquer das posições da empresa, desde que preencham um arquétipo chamado curriculo acadêmico. Em diplomas, Presidente e Porteiro são diferentes. Em sabedoria também: um pode saber mais que o outro e cabe ao sábio descobrir quem é quem.
E para descobrir quem é quem o sábio olha para a escória, o lixo produzido por cada um, o exame é mais imediato.
PRESIDENTES CONTRATAM GRIFES POIS NÃO QUEREM CORRER O RISCO DE SEREM BRILHANTES
Nunca uma empresa listada entre as maiores e melhores irá contratar uma pequena e talentosa agência de marketing: é preferível errar com a Mega Agência, pois o Presidente não será demitido.
Nunca uma empresa média, dirigida por um Presidente também mediano vai contratar um pequeno e talentoso escritório de advocacia, nem uma pequena e talentosa agência de publicidade.
A MALDIÇÃO DOS GRANDES
Existe uma maldição que acomete aos grandes: errar com outro grande para não correr o risco de acertar com o pequeno.
A MALDIÇÃO DOS MÉDIOS
Os pequenos foram suficientes para sustentar o crescimento dos Médios. Mas os Médios, para se consolidarem, precisam se livrar deste histórico de relacionamento com os pequenos: esta crença os faz mandar pagar as contas malucas dos grandes e cancelar as contas pequenas dos pequenos. O Médio para se sentir Médio precisa se livrar do Pequeno.
O PODER DOS PEQUENOS
1) Sempre haverão pequenos em ascenção, justamente aproveitando a fraqueza dos médios e a paralisia do grande.
2) Os Médios e Grandes são expulsos do Eden e demandarão a assessoria dos pequenos, pois as Portas Grandes e Médias estarão fechadas para os decaídos: Portas Grandes se fecham para orçamentos pequenos!
3) Sempre haverá a hipótese de que sábios se tornem influentes no processo de decisão de grandes ou pequenos. E sábios sabem que nada sabem, por isso procuram a companhia de outros sábios, e estes, como sabemos, construiram suas estruturas pequenas, com grande capital intelectual.
UMA CAIXA PARA AFRODITE
Psique, apaixonada por Eros, desjeva obter o perdão de Afrodite, sua sogra. O perdão, para ser obtido, estava condicionado a cumprir 3 tarefas, uma delas exigia que Psique descesse ao Reino de Hades, o subterrâneo das sombras, para persuadir Perséfone a colocar em uma caixa uma porção da sua beleza. Psique levaria a caixa de beleza para conquistar o perdão de sua sogra: Afrodite.
O que havia dentro da Caixa de Perséfone? O mesmo que existe nos contratos elaborados pelas consultorias multimilionárias de fusões e aquisições.
TAKE OR PAY
O que? Você nunca leu um dessses? Já li diversos, já negociei com diversas destas mega-consagradas. São anti-ecológicas, deveriam ser interditadas pelo IBAMA. Gastam folhas e folhas do contrato com, acreditem, definições. Isso mesmo! Escrevem assim: “Para fins deste contrato, eu sou eu, você é você e contrato é contrato.” Depois reproduzem a regra legal e portanto copiam textos enormes do Código Civil, da Lei da S/A, como se a não referencia fizesse qualquer diferença. Como se não bastassem, em um contrato entre empresas brasileiras, realizado no Brasil, utilizam-se de inúteis expressões, pasmem, em inglês: “TAKE OR PAY“, quando ficaria mais fácil um simples FAÇA OU PAGUE ou, simplesmente MULTA.
Além de sofisticado, TAKE OR PAY é também uma forma de induzir o cliente ao erro. Sim: forja a percepção de que o contrato é tão bom que a parte só tem estas duas opções, fazer ou pagar, quando sabemos que dispõe de uma terceira: ir ao Judiciário discutir qualquer aspecto da relação, como casais que vão à psicanálise.
PORQUE EROS TORNOU SEM EFEITO OS ENCANTOS DA CAIXA DE PERSÉFONE?
Simples, porque EROS era um deus, não era Presidente de empresa. Os deuses não se encantam com seus próprios encantos, logos, grifes, charutos e vinhos: eles são as divindades e quando traem ao divino tornam-se deuses caídos.
Os demais são mortais, (e as empresas morrem).
O FIM
O INÍCIO
Este artigo esta ficando longo e os leitores de hoje têm o fôlego curto. Depois eu volto e explico como uma deusa sensual derrotou O Império da Forma sobre o Conteúdo e como fazer com que as grandes consultorias se percam em seus sofisticados labirintos. Eu sei exatamente, porque já o fiz por diversas e repetidas vezes e farei outras tantas.
Porque cada vez mais empresarios contratam grife, quando pretendem contratar gente?





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6 usuários respondeu esse post
Só comentando o “Império da Forma sobre o Conteúdo”: a propaganda de “grandes agências” de comunicação está padecendo do mesmo mal … (ou a criatividade humana e a habilidade de se comunicar está diminuindo na mesma proporção que a população cresce…)
Abs
É um ótimo exemplo. O pequeno pode identificar e reter o gênio. O grande… como vai identificar e reter 1.000 gênios: é mais fácil instituir o culto ao médio. O próximo passo é consagrar o culto ao medo: quem tem medo de decidir? Simples: quem tem medo da responsabilidade da decisão. Então ficamos assim: o grande contrata o grande, torna pequeno o risco, pois se os resultados não forem alcançados todos se esconde atrás das grandes marcas. As marcas são os escudos, escudos protetores da mediocridade. Existem escudos de bolso: os cartões de visita!
Obrigado Watanabe, pela visita e comentário.
[...] A CAPITAL DO IMPÉRIO DA FORMA SOBRE O CONTEÚDO [...]
[...] Os Prisioneiros não conhecem os fatos, lidam com versões. Não conhecem objetos, sempre visualisar… [...]
[...] Sim, existe um sonho dentro do sonho, uma ficção dentro da ficção. [...]
[...] fácil, tratava-se de estimular viúvas e órfãos tomados pela histeria que hoje conhecemos como A DOUTRINA DO CHOQUE, tal qual concebida pela Escola de Chicago, experimentada nos golpes autoritários da América [...]
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