JUÍZES
JULGANDO OS QUE JULGAM
Comparecer a uma audiência é tarefa de enorme sensibilidade. Quando o Diário Oficial intima, esta convocando a todos: ID, EGO e SUPEREGO.
Então, não deixe de considerar que todas as forças de sútil violência do ser humano estarão sentadas à mesa da audiência. No altar, em qualquer das religiões do passado, do presente e do futuro, o posto mor é reservado à divindade: não se iluda, por mais humano, demasiadamente humano, que tudo se parece, ele estará presente, altivo, poderoso, divido: o Juiz, no Olimpo Forense, uma Divindade.
A SALA DE AUDIÊNCIA
Aquele é seu reino, seu reino não é deste mundo. Do portal da Sala de Audiência adiante, foi proclamada a Presidencia: há um Presidente empossado e investido no poder, no Poder de Dizer, nem sempre acompanhado no Poder de Escutar. Então, não fale, ouça. E as primeiras palavras que a testemunha irá escutar é:
“Olhe somente para mim, não olhe para os lados. Se mentir será presa e terá que pagar multa. Só respoda o que eu perguntar e nos limites da minha pergunta.“
Pronto, foi dado a largada, uma dose escandalosa de adrenalina foi despejada no sangue. Quanto mais puro e simples a testemunha, mais venal serão estas palavras. Na primeira vez que ouvi estas palavras pensei comigo:
“Será que este filho de uma boa mãe gostaria que a sua mãe estivesse sentada naquela cadeira e sendo tratada desta forma?”
Exagerei? Não: seria crime dizer isso em audiência, mas não é crime porque foi dito em sede íntima, apenas um pensamento, um pensamento sincero que tive ainda em fase uterina, então, se crime for está prescrito, esqueçam esta bobagem de reclamarem das minhas palavras.
Lendo minhas palavras, parece que nada de ofensivo existia nas palavras do Juiz. Sim, lendo no seu ambiente, na tela de seu computador, nas páginas do livro que tem em mãos… parece mesmo uma natural orientação.
Mas, ante aos olhos assustados daquele ser cujo coração disparava, que nunca havia estado a um só tempo diante de tandos deuses e semi-deuses, uma super população de doutores e doutoras, aquela gente apressada e difícil de falar, que sempre estavam voltados para outros assuntos muito mais importantes do que ouvir o que aquela boca trêmule sempre quis dizer… De repente, ao cruzar o Portal Sagrado da Sala de Audiência o mundo parou para ouvir aquela boca simples falar. Ela, que sempre quisera ser ouvida sobre tantas coisas, ela que sempre quisera o poder protetivo contra todas as potestades da vida, de repente, como num passe de mágica tinha ante a si um Ser Supremo em carne e osso, pela primeira vez na vida a autoridade olhava para ela, se interessava por ela. Mas… o encanto durou pouco, um pavor apoderou-se dela, A Testemunha, sem saber como nem porque o medo invadiu suas veias viajou pelo seu sangue e construiu o pavor total e absoluto. A divindade havia se transformado no tenebroso ser ameaçador, daquela boca justa saíra uma quase sentença, uma semi-condenação e apalavra repercutiu no seu ouvido de onde parece não ter saído até hoje:
“OLHE SOMENTE PARA MIM“
Atenção total, ele quer toda a minha atenção, pensou a testemunha. Mas, rápido percebeu ela que ele não queria, ele tomava. Em apenas 10 segundos estava aprisionada a uma cadeira, de um lugar que ela nunca esteve, com gente com quem ela nunca fôra permitida conviver, capturada pelo magnetísmo mágico daquele Juiz que então se utilizava de uma prerrogativa que tinha nome e sobrenome: PODER.
Pensei comigo: se sua bondosa mãe houvesse beijado mais, amamentado mais, talvez se o parto tivesse sido normal… se, se, se… talvez ele não precisasse hoje de tanta autoridade para atingir seus objetivos. O menino feio e bobo que permanecera naquele homem crescido, que nunca tivera a preferencia das garotas do colégio, a quem faltara amor e sexo em dose que garantisse sua satisfação juvenil, aquele para quem ninguém nunca olhara por falta absoluta de interesse, de repente, era de todos os homens que tinham o monopólio do olhar, da atenção e do interesse.
Estava proibido de se interessar por quem quer que seja: “OLHE SOMENTE PARA MIM”. Havia algo de um óbvio controle sobre a aquela mulher, que entrara como cidadã e fôra convertida em testemunha em apenas 5 segundos. Havia algo de sexual naquela vontade inexorável de prender, controlar, multar. Da forma dita, se um cacoete, uma falha impensada, um mosquito ou qualquer vento fizesse a pobre mulher olhar para o lado, para o advogado principalmente, poderia ela ver sobre si os portões do inferno e seus grilhões se fecharem.
Pensei comigo: se é assim aqui, como será na delegacia do fim do mundo, nos cantões do Brasil? Será que ainda é o que já vi ser em um passado tão distante já contemplado com a prescrição?
Pensei comigo: se é assim aqui, como seria na Idade Média? Nas masmorras do passado. Nos cárceres político do Século XX. Se é assim aqui e agora, como seria nas diversas ditaduras que atormentaram todos os povos, em nome dos povos, no sacro-santo nome sagrado do povo para o povo?
Se é assim aqui, como seria quando o julgamento era entre a mãe deste filho da mãe com o próprio filho da mãe, antes de ter se transformado em Mago Inquisitor nesta cena infernal?
Antes que pensem isso ou aquilo sobre mim e sobre o que esta lendo, advirto: esta é uma obra de ficção, protegida por direitos autorais e qualquer tentativa de violar estes direitos lhe colocará sentado diante de um Juiz Constitucional, desta feita na condição de Réu, não na tranquila e celestial condição de Testemunha.
FIM
Você esta livre, muito obrigado por colaborar com a leitura deste texto de ficção.
Em uma audiencia, quem manipula quem? O juiz, o advogado, autor, reu ou a testemunha?





Artigos Relacionados
5 usuários respondeu esse post
Nacir, você devia ser um romancista, como o grande jurista Miguel Reale, que escreve ficções.
Só que você não fala em ficção mas na dura realidade. Eu tenho urgeriza do que eu vejo em salas de audiencia, e você retratou isso com muita propriedade. Com raras exceções os nossos juizes são figuras grotescas, que sob o disfarce da toga pensam que são deuses. É uma pena que o judiciario esteja tão distante da realidade do homem simples desse Brazil afora.
Desse mal, Jatyr, do mal do distanciamento da realidade, do Brasil real, o Judiciário não padece sozinho: executivo e legislativo interagem com o real das janelas de helicópteros. É um sistema de blindagem dupla, o real é mantido afastado e os poderes se afastam para uma espécie de bolha, uma bolha de estabilidade, contenção, homenagens, o bate-palmas recíproco.
Qual a expressão do poder que se conectar com o real? A polícia e o posto de saúde/doença.
Como sempre,ja acostumados com esse cristal de otica tao real e sureal ao mesmo tempo,Nacir nos brinda com esta perola.
Nao sou advogado,mais visitei algumas poucas vezes estes recintos de audiencia.A palavra ja o diz,sao locais de ouvir e nao de falar.Se nao seriam parlatorios.
Ja passei na carne o medo incutido por bordoada verbal dos semideuses ditos juizes.
Tambem ja me desacatei e olhando firme no olho de quem pediu que so olhase para ele,vi no fundo de olho deste doutor juiz,um vazio assustador,vi dentro dele uma paisagem gelida que nao foi nada estimulante.
Ali me lembrei de Dante y do famoso bordao que manda perder toda esperanca aos que aqui chegam.
Tenho dito,concordo e aprovo a materia ficcional do meu querido advogado.
Mário, como vou nas salas de audiência por questão de ofício, ao longo dos anos desenvolvi uma técnica implacável, vou revelar a fórmula que uso para neutralizar as potestades: coloco um gravador no centro da mesa de audiência e aperto REC. O gravador tem efeito sedativo, acalma, sereniza, torna humano, demasiadamente humano, porque representa um atributo animal: a memória!
Um forte abraço!
[...] Sócrates defendeu a si próprio. O sistema era assim: um vaso cheio de água vertia seu conteúdo por um tubo localizado na parte inferior. Ao término da água, terminava o tempo da defesa. Mas Sócrates, mesmo antes de ser julgado ou de promover sua defesa já estava condenado. E isto acontece hoje em dia também. Sócrates jogou luzes em um sistema trevoso e este mesmo sistema o condenou com antecipação: existem réus que entram na sala de audiência já tendo o Juiz uma prévia sentença, um julgamento…. [...]
Deixe um Comentário: