O Falso Conflito entre o PROFISSIONAL e o PESSOAL.

MARIONETE 3O Conflito PROFISSIONAL X PESSOAL é inexistente

O que se verifica é o relacionamento entre

o SER e as diversas PERSONAGENS a que este representa

Leitores, às centenas, visitam este blog todos os dias: isto é jóia! Mas, esta semana, ao contrário de todas as outras, não escrevi nada de novo para compartilhar com este generoso público. Posso explicar assim como expliquei a um cliente. Era uma empresa do setor educacional, contratando uma negociação complexa de vital interesse. Disse a ele.

Eu negocio… fique tranquilo, trato tudo por telefone, o contrato redigimos pela internet e até sábado teremos o negócio fechado nos termos justos.

O cliente ponderou: “mas o prazo derradeiro é até  segunda feira, não temos como resolver tudo nesta quarta?

Respondi: “não, eu não posso, vou acompanhar a internação hospitalar de um familiar, quinta e sexta vou me hospedar em um hospital, acompanhar o pós operatório…, sequer vou levar o celular para poder de fato ter uma agenda particular. Mas, tudo tranquilo, abro uma excessão e com dois telefonemas fecho este negócio.

O cliente compreendeu, afinal, era questão de prioridade. Acertamos os detalhes do que eu estava autorizado a pactuar e encerramos o assunto. Dai me perguntou sobre a agenda médica, quem iria se internar, qual o procedimento cirúrgico, em que hospital, etc.

Conclui, contrariando todas as regras de ouro do marketing pessoal, dizendo: “é que priorizo o pessoal sobre o profissional“.

Esquisita esta forma de lidar com o interlocutor. Afinal, ele estava me contratando e eu estava vendendo os meus serviços. Dizer, sem ser perguntado, que minha política de valores coloca meus interesses pessoais acima dos interesses profissionais é no mínimo  estranho. Sim, eu podia ter ficado quieto, mentido, vendido um status e entregue outro, enfim, fazer como a maioria que nos deixa na mão na hora “h”, que vendem um paraíso e entregam o inferno. Mas, convenhamos, o que você prefere? Contratar quem diz o que você quer ouvir ou contratar aquele que diz como e quando de fato fai fazer o que precisa ser feito? Aliás, qual o problema de priorizar o pessoal em detrimento do profissional? Não é esta uma prioridade natural, equilibrada, legítima? Você confia em quem inverteu a ordem natural das prioridades? Produzir alimento é mais importante que se alimentar? O trabalho serve à vida ou a vida ao trabalho?

ONDE ESTA O ERRO?

MARIONETES 2O erro é etimológico. O texto acima e o diálogo real havido com o cliente possuem um único erro. Não se trata de um erro mercadológico, mas um erro etimológico. Em verdade o que confessei priorizar não era o pessoal. “Pessoa ” como se sabe tem origem em “persona”, “personagem“. Nem a minha identidade profissional nem minha identidade pessoal é de fato a essência do meu ser. Quando priorizei focar meu tempo e minha atenção em acompanhar alguém em um ambiente hospitalar, quem assumiu o foco dos meus interesses não foi nem o pessoal nem o profissional, mas o SER, foi uma escolha ontológica.

Sim, o pessoal e o profissional são manifestações de nossas personalidades, das personagens que representamos. A personagem pessoal é pai, filho, vizinho, marido, cidadão, isto ou aquilo. A personagem profissional é advogado, negociador e outros tantos papéis. Mas, um e outro são personagens. No comando, dando vida às personas e vivendo independente delas, no centro de tudo, está o SER.

A serviço do SER, as personagens, as várias que desempenhamos quer seja ao longo do dia ou ao longo da vida.

QUEM DOMINA, QUEM É O DOMINADO?

Mas, a esquisofrenia da vida moderna quebrou o eixo do real de muita gente. Muitos seres submergiram em suas respectivas personagens e vão DR MARIONETEpara a cama como advogados, administradores, admiradores, amantes, amados, amores, avós, avôs, antepassado, ascendente, amigo,  amigo do amigo (para ficar apenas nos iniciados com a letra “A”, mas a diversidade desafia todo o alfabeto). Os seres foram capturados pelas personagens, a criatura dominando o criador. Assim, é o fim do mundo um ser humano dizer que tal dia sua prioridade é simplesmente ser humano em detrinamento da personagem profissional. O SER está dominado.

E o que aconteceu no final da história?

Com a personagem profissional: Ontem, no sábado, dois telefonemas foram dados, o negócio foi fechado. No terceiro telefonema a sintonia fina se realizou. O cliente atingiu o seu objetivo, minha personagem profissional também. Não houve contestação nem pressão, nem ilusão, nem promessa inexequível, nem mágica.

Com o ser humano: o procedimento médico foi bem sucedido, amigos visitaram, telefonaram, enviaram e-mail’s, flores e até mesmo um delicioso panetone da Cacau Show. Tudo muito humano.

FIMCom mais frequencia do que eu desejo, vejo a face de meus clientes expressarem surpresa por receberem uma explicação fundada em uma prioridade típica de ser humano. Não deveriam ser desta forma, o dominante deveria ser o humano e o profissional deveria ser o dominado. Todos, quando começam no ritual de se tornarem clientes, utilizam doutor, senhor, etc. Isso me incomoda tremendamente. Tem uma personagem da qual gosto muito que é o de Dr. Negociação, cuja marca traduz uma tremenda “sacada”. Porém tenho clara consciência de que se trata apenas de uma marca registrada. Mas, o tal do doutor é uma pobre forma de distanciamento, que carimba a supremacia da persona sobre o ser, como uma gravata apertada que sufoca o oxigênio que nos une a todos. Sim, do alto dos sapatos lustrados, semi-enforcado em uma gravata, o doutor quando entra em um elevador inspira e expira, ao seu lado o moto boy também oxigena-se pela inspiração e expiração… o ar que sai dos pulmões de um entra nos pulmões de outro… estão todos interligados e a arrogância de doutores e doutoras procura encobrir este fato. Somos todos um só corpo em um só grão de areia viajando no cosmos: mas uns se entendem doutores desembargadores, ministros, presidentes… seres aprisionados por suas personas: o criador dominado pela criatura.

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  1. Silvana
    dezembro 4th, 2009 at 17:46 | #1

    Qual o verdeiro conflito? Perder a essência do menino sonhador, ou concluir que apenas representamos vários papéis? O SER, O PESSOAL OU O PROFISSIONAL. A alma é una, não permite divisões. Somos o que somos em todas as situações, ou deveríamos ser…

    • dezembro 6th, 2009 at 17:31 | #2

      Olá Silvana. O Conflito foi ao longo do tempo um grande aliado do amadurecimento. Houve um tempo que os egípcios consideravam que o sol nascia a leste do Nilo e o “poriente” guardava a despedida do sol ao fim do dia: nascia no leste, na terra dos mortos e punha-se a oeste. Era muito fácil dividir o mundo em dois reinos, o da morte e o da vida. Até que os horizontes se ampliaram e descobriram eles o Eufrates que, ao contrário do Nilo, corria do Norte para o Sul. Se ambos os rios corriam em sentido contrário a margem direita do Nilo, onde estava a Terra dos Mortos se posicionava exatamente na posição contrária da margem direita do Eufrates. Tremendo problema: onde então ficava a Terra dos Mortos, à leste ou a oeste? E da confusão, do conflito de certezas, surgia a demanda por mais ciência, mais razão. O conflito cumpriu sua função de estímulo, neste e em tantos outros episódios em que as certezas foram confrontadas por rupturas que nos levaram a novas certezas. O menino, quando exposto ao conflito ou às “dores do crescimento”, tem a modificação não só operando em suas crenças mas também eu sua estrutura neuro-fisiológica, pois quando criança temos 3/4 de massa branca contra apenas 1/4 de massa cinzenta, proporções que tendem a se igualar após à adolescência. Assim, de conflito em conflito, de personagem a personagem, desenvolve-se a vida!

  1. dezembro 10th, 2009 at 00:09 | #1
  2. maio 7th, 2010 at 01:01 | #2